agosto 08, 2008

O ATRASO E O EXAME DE FEZES

Concordo... Se eu estivesse ouvindo esta narração, jamais acreditaria que tivesse realmente ocorrido. Coisas ruins, estranhas e engraçadas acontecem todos os dias, mas numa sucessão tão infeliz, é quase inverossímil.
Esta narrativa não pretende dar lições de moral ou ensinar nada a ninguém, mas serve como um relato de como o atraso pode afetar de forma incalculável a vida de uma pessoa.
Por alguns anos, fiz escavações arqueológicas pelo interior do Estado, durante os períodos de férias escolares. Nas saídas de campo, a higiene não era a preocupação primordial da equipe, afinal, estávamos, geralmente, em regiões distantes de qualquer estrutura urbana. Assim, a alimentação não podia ser cercada de preocupações dessa natureza. Os almoços se restringiam a sanduíches misturados com folhas e terra. Essa função durava dias e até semanas.
Diante desse “desapego” à higiene imposto pela circunstância, contaminações poderiam acontecer. Confesso que nunca me preocupei com esses detalhes, mas resolvi me precaver de qualquer surpresa desagradável e marquei consulta com um clínico geral para pegar os requerimentos de exames. A data da consulta ficou para o mesmo dia do início das aulas. Na época, eu lecionava em Sapucaia do Sul e precisava sair de casa às 18h para não chegar atrasado em aula. Marquei a consulta para as 15h para não correr nenhum risco de atraso.
No dia e hora marcados, estava na clínica na qual minha família sempre foi conveniada (esse fato será relevante em breve...) e aguardei na sala de espera com uma certa tranqüilidade, já que a minha ficha era a terceira, eram 14h50 e o atendimento começava às 15h. Minha preocupação iniciou às 16h, quando o médico ainda não havia chegado ao consultório e a sala de espera estava lotada.
Nessa hora, avistei um médico conhecido passando pelo corredor da clínica. Tratava-se do meu antigo pediatra. Saí da sala de espera, fui ao seu encontro e, após aquelas conversas amenas e superficiais, contei-lhe minha situação. Como se tratava de uma simples requisição, pediu que fosse até a sala de espera do seu consultório e que logo eu seria chamado. Entrei, sentei e esperei. Havia algo estranho no ar, pois percebi umas 4 ou 5 mulheres que não tiravam os olhos de mim. Definitivamente, seus olhares não mostravam qualquer tipo de flerte ou interesse. Era estranheza mesmo.
Entendi a situação quando li a placa na porta que anunciava a nova especialidade do meu antigo pediatra: Ginecologia e obstetrícia.
Aqueles longos minutos de espera terminaram com o médico me chamando ao seu consultório, preenchendo o pedido de vários exames e me acompanhando até a saída. Esperava que a situação estivesse encerrada, mas assim como a narrativa de Joseph Climbert, “a vida é uma caixinha de surpresas” e meu abnegado pediatra fez questão de me acompanhar até o laboratório para pegar os recipientes necessários para “as coletas”.
Para a minha infelicidade, a atendente do laboratório era um daqueles monumentos de capa de revista e, antes que eu entregasse as requisições de forma discreta, com a tola esperança que ela não percebesse do que se tratava, o doutor alardeou um “pega potinhos pra coletar o coco e o xixi desse garoto”.
Depois de um sincero agradecimento, me despedi do médico e logo a atendente chegou com os potes, informando que eu deveria fazer as coletas em jejum e entregar o “material” até as 9h do dia seguinte, em ponto.
Quando vi o tamanho do pote de coleta das fezes e imaginei a minha capacidade produtiva, pensei no problema que teria.
No dia seguinte, coletei a urina sem nenhum problema, mas fiquei uns cinco minutos no banheiro elaborando vãs estratégias para coletar as fezes. O jeito foi colocar o pote na saída do “material” e tirar os excessos com a tampa. Ufa! Missão cumprida e potes cheios. Mas... como sair na rua com aquele material à mostra? Enrolei os potes num jornal, coloquei numa sacola plástica e saí de casa.
Fui direto ao laboratório e, chegando 5 minutos após o horário, a atendente informou que o motoboy já havia saído com as remessas da manhã. Não adiantou argumentar que eram “apenas” 5 minutos, pois isso não faria o entregador retornar.
A atendente informou que a solução era simples. Bastava colocar os potes em vários sacos plásticos, amarrá-los bem e deixá-los na (argh!) geladeira. Sem alternativa, saí da clínica, joguei o material no banco traseiro do meu carro e fui para casa.
No caminho, encontrei um amigo com problema no carro. Ele informou que o carro não pegava direito e que depois de percorrer alguns metros, apagava. Diante da situação, fechei o meu carro e me ofereci a acompanhá-lo até o mecânico, pois caso o carro apagasse no caminho, eu ajudaria a empurrar.
Obviamente, esqueci do material coletado e, duas horas depois, com um sol de 35 graus cozinhando o interior do meu veículo, retorno. Não precisei lembrar do material, pois ao abrir a porta do carro, o cheiro denunciou o meu esquecimento.
Resumo da história: um mês depois do ocorrido, o odor no meu carro insistia em me lembrar da minha fraca memória e dos meus constantes atrasos. O preço de 5 minutos de atraso foi caro demais para mim.

A propósito, todos os exames realizados posteriormente deram negativo.

2 comentários:

Isabel Ayala disse...

Eu tenho um comentário!! hehe Os exames que deram negativo...foram relacionados ao material pré-cozido no carro?

Isabel Ayala disse...

Bah...é pré-cozido ou pré cozido...???